sábado, 12 de dezembro de 2015

Belchior - Alucinação [1976]

Mega FLAC


Por Allan Kardec Pereira em Tequila Radio

Filho de bodegueiro, sobrinho de boêmios. Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, cearense de Sobral. Cantador de feira, poeta. Seminarista por um tempo, quando de lá saiu em 1965, veio conhecer a música dos Beatles, que desde 1962 já existiam. Teve influências visíveis em sua música da poética direta de um Dylan. Afastava-se dos concretos, “A minha alucinação é suportar o dia a dia/e o meu delírio é experiência com coisas reais”, diria o poeta/cantor em Alucinação. Alguns até aproximariam esse estilo direto de canções/poesia sujas de vida do estilo de Ferreira Gullar – uma vida quase palpável, diante da voz rouca e do tom de lamúria que anos depois os Mamonas Assassinas parodiariam em “Uma Arlinda Mulher”. Flertou com os Tropicalistas, quiçá mais no sentido de recepção da música estrangeira, sobretudo os já citados Beatles e Dylan. Há claras referências musicais aos dois, embora Belchior acompanhe suas canções essencialmente dos ritmos nordestinos e cearenses – sobretudo o brega, com letras extremamente particulares.

Alucinação, de 1976, é o segundo LP de Belchior, o primeiro a garantir sucesso de público e crítica ao jovem nordestino então chegado ao sul. É visível o tom de engajamento em prol da juventude, através da evidente dicotomia entre rebeldia e repressão. Lotado de referências as mais dispares possíveis- muitas delas através de um posicionamento irônico do cantor (à algumas letras de Caetano) -, tais como Drummond Allan Poe, Manuel Bandeira; os baianos Gil e Caetano; suas influências estrangeiras, Dylan, Lennon e McCartney, além de Kubrick em referência a Laranja Mecânica.

Letras um tanto longas, declamadas com a alma em Apenas um rapaz latino-americano, canção que versa sobre a vida do próprio cantor em sua chegada a cidade grande. Talvez nos versos: “Mas não se preocupe meu amigo/Com os horrores que eu lhe digo/Isso é somente uma canção/A vida realmente é diferente/Quer dizer!/A vida é muito pior”. resida um pessimismo realista diferente do que, por exemplo gritava Caetano em “Alegria, Alegria”. Explicitado ainda mais na faixa “Fotografia 3×4″, onde os versos: “Veloso o sol não é tao bonito pra quem vem do norte e vai viver na rua…”.

“Como o diabo gosta”, “Velha Roupa Colorida” e “Como nossos pais” trabalham com essa idéia de rebeldia e leva a esperança – sempre presente, é verdade, ainda que por trás de todas as dificuldades – para um nova possibilidade de juventude. Há também falas sobre amor, amizade (“Para abraçar meu irmão e beijar minha menina na rua /é que se fez o meu lábio, o meu braço e a minha voz, em“Como nossos pais”), bem como encanto e desencanto advindo dos estranhamentos da migração nordestina para o eixo Rio-São Paulo (“Em cada esquina que eu passava / um guarda me parava / pedia os meus documentos e depois sorria /examinando o 3×4 da fotografia / e estranhando o nome do lugar de onde eu vinha”, em “Fotografia 3×4”);(“Vou ficar nesta cidade / não vou voltar pro sertão / pois vejo vir vindo no vento / o cheiro da nova estação, em “Como nossos pais”).

Para além do rock esperançoso de “Sujeito de Sorte”, prevalece em Alucinação um desencanto poético calcado em uma profunda análise de si por parte daquele que canta. Exemplificada na grande canção (na minha opinião, a mais brilhante de Belchior) “A Palo Seco”.

“E eu quero é que esse canto torto,
feito faca, corte a carne de vocês.” 



A1 - Apenas Um Rapaz Latino Americano
A2 - Velha Roupa Colorida
A3 - Como Nossos Pais
A4 - Sujeito de Sorte
A5 - Como o Diabo Gosta

B1 - Alucinação
B2 - Não Leve Flores
B3 - A Palo Seco
B4 - Fotografia 3×4
B5 - Antes do Fim

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