quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Edoras - Lands of Shadows [2015]



Dungeon Synth é um gênero de música caracterizado por seu forte uso de atmosfera e melodia para criar uma realidade sonora geralmente pertencente, em conceito, aos períodos fantásticos ou históricos. O gênero atrai a influência do gênero dark ambient, enquanto abrange estruturas musicais que são encontradas na música medieval e folclórica.

No Brasil o dungeon synth tem Edoras como banda representante, que usa do universo de J. R. R. Tolkien (Senhor dos Anéis, Hobbit) para criar suas composições. Wogharod é o nome da mente criativa desse projeto de banda de um homem só.


1 Angmar
2 Plateau Of Gorgoroth
3 Gates Of Mordor
4 Mordor
5 Shelob's Lair
6 Isengard



segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Hyldon ‎- Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda [1975]

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Por Paulo Rezende em 45 rpm

Uma das mais belas criações musicais em terras tupiniquins, é como posso definir esse álbum tão maravilhoso. Hyldon fora uma das maiores referencias nacionais para influenciar o Soul/Funk no país.

“Na rua, Na chuva, Na Fazenda” fora o álbum inaugural do cantor, compositor, produtor e instrumentista baiano. Lançado em 1975 pela gravadora Polydor, é considerado um divisor de águas para música negra, se tornando um clássico brasileiro. Juntamente com Cassiano e Tim Maia, Hyldon se tornou um dos percussores do estilo Soul Music no Brasil.

O disco possui inúmeros sucessos, muito bem gravados e que passou por inúmeras regravações de outros artistas. Faixas como “Na Sombra de Uma Árvore”, “Vamos Passear de Bicicleta” e “Acontecimento” gravados por Marisa Monte, “As Dores do Mundo” e “Sábado e Domingo” gravadas por Jota Quest e a faixa título “Na Rua, na Chuva, na Fazenda (Casinha de Sapê)” por Kid Abelha.

Deixando as histórias e regravações de lado, eu quero chamar atenção para um ponto especifico nesse álbum: Técnica!

Não podemos deixar de mencionar o quão incrível tecnicamente é o álbum “Na rua, Na chuva, Na Fazenda”. Um disco conceitual que além de trazer toda a raiz do Soul/Funk traz elementos do Jazz sutilmente fundidos nas músicas dando uma sofisticação diferente dos discos produzidos na década de 70 aqui no Brasil.

É preciso entender também o tamanho do impacto cultural que Hyldon e seu disco inicial fez para o Brasil. As pessoas nascidas após os anos 90 talvez não conheça, mas esse disco foi muito bem recebido pelo grande público e tocou quase todas as faixas nas rádios sendo muito bem pedidas. Grandes filmes do âmbito nacional usaram das músicas de Hyldon como Carandiru, Durval Discos, O Homem do Ano, Antônia e Cidade de Deus. Usadas em músicas de Rap nacional como MV Bill e Nega Gizza.


A1 Guitarras, Violinos E Instrumentos De Samba
A2 Na Sombra De Uma Árvore
A3 Vamos Passear De Bicicleta?
A4 Acontecimento
A5 Vida Engraçada
A6 As Dores Do Mundo

B1 Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda (Casinha De Sapê)
B2 Sábado E Domingo
B3 Eleonora
B4 Balanço Do Violão
B5 Quando A Noite Vem
B6 Meu Patuá

sábado, 4 de novembro de 2017

Gerson King Combo - Volume II [1978]

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Por Charles Gavin na contracapa da reedição de 2001

Após o sucesso do primeiro disco, Gerson Combo, o rei do suingue, investe em uma sonoridade mais próxima ao r&b e lança o segundo disco: "Gerson King Combo Vol II", Polydor [1978]. A consciência negra e a liberdade de expressão continuam presentes em sua letas, mas o grande mestre do funk brasileiro procura também o humor e o romance para escrever canções que se tornariam obrigatórias nos toca-discos dos dj's nos anos seguintes.

A1 Pro Que Der e Vier
A2 Hey, Você
A3 Funk Brother Soul
A4 E Moisés Falou
A5 Meu Nome e...
B1 Na Trilha Do Coração
B2 E Melhor Pra Nós Dois
B3 Good Bye
B4 Tenho Um Vulcão Dentro De Mim
B5 Por Isso Vou Te Amando
B6 Aquela Brincadeira

sábado, 28 de outubro de 2017

Carlos Dafé - Pra Que Vou Recordar [1977]

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Por Vitor Ranieri em Soul Art

“Os ensaios, rangos e bauretes na Seroma não paravam de receber convidados. Muitos músicos nem faziam parte da banda, apareciam só pelo prazer de tocar e aprender com bons músicos. Um dos mais freqüentes era um pretinho magrinho de Vigário Geral, todo bonitinho, que tocava piano, baixo e órgão, além de compor e cantar muito bem. Com 20 anos, Carlos Dafé tinha sido fuzileiro naval, isto é, da banda dos Fuzileiros Navais, e depois de dar baixa formou o conjunto Fuzi-9, que o levou aos Estados Unidos e ao Caribe tocando em um navio. Na volta, gravou um compacto na Philips, na onda do soul. O disco não chegou a acontecer, mas, levado pelo divulgador Paulo Murilo, chegou às mãos e aos ouvidos de seu ídolo Tim Maia, que gostou muito do seu som e mandou chamá-lo.

A primeira visão que Dafé teve de Tim foi assustadora. Ele estava hospedado em um hotel no Lido, ponto de putas em Copacabana, e o recebeu completamente nu, felizmente debaixo de um cobertor com Janete. Ofereceu um uísque e disse que ficasse à vontade, estava contratado. No dia seguinte, Dafé já estava torrando bauretes e tocando entre as feras da Seroma — as musicais e as caninas.”

A apresentação acima faz parte do livro Vale Tudo – O som e a fúria de Tim Maia, escrito pelo jornalista e produtor bem relacionado, Nelson Motta, e narra o início da carreira do soul man Carlos Dafé, até seu encontro decisivo com Tim. Se não bastasse ter o Síndico como padrinho, vale lembrar que Dafé, apelidado pelo autor do livro como Príncipe do Soul, teve uma breve passagem também pela banda Abolição, liderada por Dom Salvador, antes dos fatos acima citados. É fraco o rapaz?


O disco Pra que vou recordar, de 1977, foi a estreia de Carlos Dafé em um cenário esquentado pelo movimento Black Rio, e chegou a vender quase 250 mil cópias na época. Suas principais canções estão nesse registro, e podemos encontrar referências de algumas delas em músicas de Seu Jorge, Sabotage e Rappin Hood. Assim como Hyldon, Cassiano, Gerson King Combo, e tantos outros, Carlos Dafé não teve nas décadas seguintes o devido reconhecimento por seu talento, seguindo a sina do soul man brasileiro. Constantemente é visto dando uma palinha nos shows do Instituto, além de ter participado de algumas apresentações internacionais ao lado do carioca Arthur Verocai. Entenda o porquê.


A1 De Alegria Raiou O Dia
(Carlos Dafé, Mita)
A2 Tudo Era Lindo
(Carlos Dafé, Jomari)
A3 A Cruz
(Carlos Dafé, Tánia Maria Reis)
A4 Hello Mr. Wonder
(Carlos Dafé, Claudio Stevenson, Luiz Carlos Dos Santos)

B1 Bem Querer
(Carlos Dafé, Lucio Flavio, Tião Da Vila)
B2 Pra Que Vou Recordar O Que Chorei
(Carlos Dafé)
B3 Zé Marmita
(Carlos Dafé, Vandenberg)
B4 Bichos E Crianças
(Carlos Dafé, Marilda Barcelos)
B5 O Metrô
(Carlos Dafé, Lucio Flavio, Oberdan)


domingo, 1 de outubro de 2017

Acidogroove [2016]

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Por Jessica de Paula em Mineira Sem Freio

O álbum conta com 8 faixas que trafegam entre o indie, o grunge e o rock alternativo e gravado nos estúdios da Sapólio Radio, produtora idealizada por Guilherme Diamantino e Frederico Laterza no ano de 2005 e fundada em 2010 aqui em Uberaba. E delícia das delícias: a mídia física escolhida para o álbum é o bom e velho vinil. Só orgulho esse povo me dá ♥ ♥ ♥.


quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Augustine Azul - Lombramorfose [2016]

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Por Guilherme Espir em La Parola


Vencer no cenário underground é o que diferencia os “homens” dos “meninos”.

Turnês na lombra de uma van, atravessando os estados a torto e a direito, significam noites mal dormidas para ganhar tempo no velocímetro. Perrengues de praxe com o carro, pouca verba para laricar… Esses são apenas alguns dos problemas enfrentados por quem almeja chegar e conquistar o grande público.

E é justamente desse cenário instável que surge, na cáustica João Pessoa, uma das bandas mais coesas, ainda que não tão conhecida, do cenário instrumental nacional: a Augustine Azul. Trio Progressivo bem grooveado na psicodelia, formado em 2014 pelos músicos locais: João Yor (guitarra), Jonathan Beltrão (baixo) e Edgard Júnior (bateria).

Lombramorfose foi gravado e produzido pelo próprio trio, no Estúdio Peixe Boi, tradicional espaço da cena Paraibana. O sucessor do primeiro EP homônimo da banda lançado em 2015, não só chega sustentando a química kamikaze do trabalho anterior, como ainda eleva o padrão técnico das composições e ganha projeção mundial com o apoio da More Fuzz Records – selo da More Fuzz, talvez o site mais conceituado quando o assunto é a cena gringa de Stoner-Sludge.

É como o João Yor (guitarra) explica:

“As composições foram tomando forma naturalmente, basicamente no mesmo processo em que estávamos compondo na época do EP, a maior diferença desses dois materiais foi o tempo disponível que a gente tinha e a qualidade dos recursos”. 

Com uma estrutura bem montada, composições com espaço para mais experimentos e improvisações, doses de Hard, Funk e Blues embebidos em timbragens Stoner, a Augustine Azul promove uma mescla de sons cheia de sentimento, versatilidade e criatividade, resultado difícil de alcançar, mas que após escutarmos o disco, parece fácil e óbvio.

domingo, 10 de setembro de 2017

Bike - Em Busca da Viagem Eterna [2017]

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Por Alejandro Mercado em A Escotilha


A BIKE retorna com seu segundo álbum, Em Busca da Viagem Eterna, oferecendo ao ouvinte um passeio onírico, um mergulho profundo e arraigado na psicodelia contemporânea brasileira. Bebendo em fontes tão plurais quanto a musicalidade permite, o grupo despeja riffs de forma quase celestial, optando por fazer uma experimentação menos enérgica e selvagem do rock psicodélico, mas, ainda assim, com uma estética sonora fortemente ligada ao imaginário do ritmo, que possui uma roupagem muito particular em terras brasileiras.

Lançando mão de músicas menos cruas ou caóticas e unindo com perfeição distorções e reverb, a BIKE impressiona com suas composições ricas que fogem ao exagero do virtuosismo, compondo faixas em que as texturas se entrelaçam e hipnotizam, acentuando a junção ímpar das harmonias vocais, linhas de baixo com grooves proeminentes e uma bateria certeira.

Faixas como “Enigma dos Doze Sapos”, que abre o álbum, e “A Montanha Sagrada” se transformam rapidamente em interpretações sonoras de um contato lisérgico com lugares mais interessantes que nossa realidade. Há tons épicos nesta segunda, que utiliza a narrativa musical como espécie de transe no ouvinte.

Um dos pontos mais curiosos e característicos deste novo disco é como ele é mais expansivo que o anterior, mesmo que essa expansividade se expresse através de arranjos mais sutis, sensíveis e sensuais. A banda, que participou do projeto Psicorixádelia produzido por A Escotilha, cria uma bagunça de sons que vão, a cada nova canção, desconstruindo e reconstruindo nossas impressões sobre o que seja essa nova cena psicodélica no Brasil. Trata-se menos de ser inovador e mais de ser imensuravelmente sensitivo.

Toda a força que o grupo já havia demonstrado em 1943 é amplificada com Em Busca da Viagem Eterna, um disco muito mais seguro e redondo que o anterior, e de tanta qualidade quanto. Se a eternidade era o resultado da viagem que a banda faz no álbum, ela tem sucesso sem sombra de dúvida, encadeando composições sonhadoras o bastante para serem a perfeita definição da proposta musical (e, obviamente, estética) dos integrantes.

Com tamanho talento, não é difícil entender o porquê o quarteto paulista, formado por Rafa Buletto, Daniel Fumegaladrão, Julito Cavalcante e Diego Xavier, atravessou o oceano para shows no exterior. Com tamanho talento e potencia, seria egoísmo guardar apenas para nós.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Bebeco Garcia - Me Chamam Curto Circuito [1999]

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Contanto com o acompanhamento do Bando de Ciganos, formado pelos músicos Egisto Dal Santo e Edinho Galhardi, e com a participação do filho de Bebeco, Pedro Garcia, na bateria. A produção ficou a cargo do próprio Egisto Dal Santo.

1. Um dia no futuro
2. Sala de espelhos
3. Eu sou um astronauta
4. Não chore por mim
5. Me chamam curto circuito
6. A vida é dura rapaz
7. Me mostre o seu sorriso
8. O maluco sou eu

domingo, 27 de agosto de 2017

Pepeu Gomes - Um Raio Laser [1982]

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Por jpbueno em Um Disco Por Dia

Era uma modorrenta terça-feira (o dia internacional do Nada a Acontecer), tava eu todo pimpão dando expediente no office quando chega uma informação via email que o honorável guitarrista, cantor, compositor e baiano Pepeu Gomes, teria grande parte de sua obra solo relançada em CD.

Munido dessa informação, me perguntei: Why?

Munido dessa mesma informação, consultei os botões da camiseta: Quem a essa altura do campeonato iria parar sua vida e comprar um disco de Pepeu?

Muito intrigado e muito curioso, fui atrás pra saber o que sairia, afinal, vai que…. né?

Fui lá eu pesquisar um pouquinho e não é que eu descobri que tinha um monte de gente querendo botar as mãos nesses discos!!! Vá entender, pensei comigo novamente.

Pesquisando a fundo, não é que tem uns discos bons esse danado de Pepeu?

Pepeu sempre foi um guitar hero terceiro-mundista muito bem quisto em todas as praças musicais mundo afora, agora… se ele tinha feito alguma coisa que preste… era outra conversa…

Entonces, capturei esse Um Raio Laser no meio de outros e a bizarrice da capa, que mostra nosso Hendrix tupiniquim com um cabelo e uma mexa verde de dar inveja aos astros do forró eletrônico nowadays, só é superada pela contra capa suprema desse mesmo quitute, com o astro de corpo inteiro soltando um raio laser tosco de sua guitarra “blade-runneriana”.

Coragem irmão, felizmente a bizarrice acaba no campo estético, porque o disco é bom, espantosamente bom.

Pode parecer viagem, mas dá para sacar uma forte presença de Prince circa 1999 ou Around The World In A Day nos momentos mais pops desse álbum. Não era facil escapar da influencia do senhor “púrpura” nos early eighties.

Funk e swingue oitentista de primeira se unem a uma guitarra aguda e frenética para compor este belíssimo exemplar de pop nordestino legitimo e redondo. Um Raio Laser é uma bobagem ensolarada muito bem informada musicalmente e que sobreviveu bem ao tempo.

Tirando os discos ao vivo, que eu não pego bem de jeito nenhum, o relançamento dessa discografia foi deveras oportuna e serve para jogar luz a um momento obscuro do pop brazuca: O pop dos anos 80 feito por artistas com mais de 30 anos. Há mais nessa cumbuca para revirar, mas bateu uma preguiça e eu vou é dar uma espreguiçada…


A1 Fazendo Musica,Jogando Bola
A2 Um Raio Laser
A3 Sonhar
A4 No Céu Do Arpoador
A5 Sabor De Salsa
A6 Planeta Vênus
B1 O Som Esta Solto
B2 Delicado
B3 Agogô (Pra Ralph McDonald)
B4 Olodum Origem Negra Nagô
B5 Faveleira

domingo, 20 de agosto de 2017

Walter Franco - Vela Aberta [1980]

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Por Alexandre Ott em Whiplash

O velho dicionário escolar define petardo como um engenho explosivo, portátil, projetado para destruir obstáculos. Pois essa definição parece extremamente apropriada para a canção de um certo (e muito peculiar) compositor brasileiro chamado WALTER FRANCO. “Canalha” é simplesmente uma bomba lírica, dramática e, claro, musical. Talvez o maior petardo da história da música popular brasileira, nem sempre afeita à linguagem do Rock’n’Roll. Por isso, é hora de entrar nesse campo minado onde jazem tantos grandes músicos e conjuntos esquecidos e, finalmente, recolher essa peça que parece ser feita de nitroglicerina pura!

O compositor

São poucos os compositores cujas canções alcançam tamanha penetração no imaginário popular a ponto de tornarem-se uma espécie de provérbio, de máxima. WALTER FRANCO é um desses privilegiados. Se sua obra como um todo é de difícil compreensão, ou mesmo de difícil digestão para a miscelânea de gostos existentes, por ser ela própria uma grande mistura de elementos, com ingredientes nem sempre muito palatáveis, por outro lado, todos concordam que, destarte a variedade de nossas experiências sonoras, “é preciso manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo”.


O dito acima, por si só, seria suficiente para conferir identidade ao cantor e acionar instantaneamente a nossa memória. Porém, isso seria injusto, pois o experimental Walter não é homem de uma só canção. Escrita há mais de 30 anos, “Canalha” é tão marcante que poderia valer por um disco inteiro de rock contemporâneo.

Surgido na década de setenta, WALTER FRANCO é comumente associado a um movimento marginal ao curso da grande MPB: a vanguarda paulistana. Como uma boa cena alternativa, ela não teve um rosto bem definido, mas antes, agrupou faces e nomes diversos pela sua heterogeneidade e experimentalismo. ARRIGO BARNABÉ (para certa crítica, o ZAPPA brasileiro) é e foi um dos seus maiores representantes. Pois foi junto a este grupo que Walter se colocou – no limbo, nas bordas da tradicional MPB.

Sua música verte entre a canção mais suave e peças como “Canalha”. Sua temática tem um quê existencial, na medida em que tanto aborda a angústia cotidiana quanto profetiza a sua superação. Em resumo, WALTER FRANCO é costumeiramente citado como um artista de fortes idiossincrasias, daqueles que associam a música à poesia e, como se não bastasse, a coisas como o concretismo e outros que tais. Não à toa integrou a referida vanguarda paulista e fez, ao longo da vida, parcerias com gente como LOBÃO.

O álbum

O disco que contém essa grande peça é “Vela aberta”, de 1980. O quarto álbum da carreira do cantor, já famoso por ter emplacado “Coração tranquilo” (presente no registro “Respire fundo”, de 1978), caracteriza-se pela heterogeneidade já referida. Walter abre a vela do seu barco e navega por sons que se espraiam desde as águas nem tão lamacentas de um Blues paradoxalmente alegre, como em “O blues é azul”, onde Walter canta o amor, até as correntes que nos remetem a algo de nordestino, de melancolicamente brasileiro, como a faixa-título “Vela aberta”, em que Walter poetiza a atitude nômade.

Há ainda composições como “Tire os pés do chão”, com um arranjo indefensavelmente piegas, o qual nos faz lembrar de momentos análogos em CHICO BUARQUE e ELIS REGINA, por exemplo; e também canções como “O dia do criador”, que tem a bossa da então nascente década de 80, no embalo do reggae popularizado. “Feito gente” é o momento soul do disco, com muito boa levada de baixo-bateria. "Me deixe mudo" e "Como tem passado" são canções divertidas. Finalmente, “Divindade” mostra a cara do rock setentista, sem superar, no entanto, “Canalha”, o incontestável ápice da obra, a partir do qual lançam-se sombras sobre os outros momentos do play.

O álbum é interessante e estranho ao mesmo tempo. Pessoalmente, causou impressões diversas em cada audição: da assimilação à repulsa, prevalecendo a primeira. Talvez seja essa a condição do trabalho de um vanguardista, como se propôs a ser Walter em sua época, ainda mais em termos de MPB – um universo tão diverso e controverso. Diríamos que FRANCO provoca-nos ao modo tupiniquim: ele nos leva do asco ao deleite, do quase-reggae ao rock rapidamente. O destaque final vai para ele próprio, WALTER FRANCO, com este seu tempero exótico, inusitado, e para a muito boa cozinha do disco.

A peça

“Canalha” inicia com ares épicos, num belíssimo tema ao piano, entremeado pelas frases distorcidas da guitarra. O ambiente criado pela banda é imponente, é dramático. Os acordes do piano harmonizam-se plenamente com a entrada em cena de FRANCO e a canção, paulatinamente, cresce. O desabafo, o vaticínio tão supostamente fatalista quanto aparentemente realista do cantor é intenso: para ele, nossas almas serão dilaceradas pelas inevitáveis dores do existir. Diante deste quadro limítrofe, em pouco menos de um minuto, a peça explode na emoção de seu primeiro clímax, consumado de forma grotesca e feroz pelo urro e pelo berro de Walter.

Com isso, o resto da banda se apresenta: ótimas viradas de bateria se colocam em meio a uma levada direta e empolgante. Logo percebe-se que a mistura será refeita por uma cozinha explosiva, que municiará FRANCO em seu intuito de levar tudo pelos ares novamente. Seu retorno, com cordas ao fundo, é antecedido por uma passagem de baixo simplesmente sensacional – pela felicidade seja de sua execução, seja da timbragem do instrumento. O fraseado do baixo praticamente divide, com FRANCO, o protagonismo em “Canalha”.

Assim, já em um Rock franco - e sem trocadilhos -, mais direto do que nunca, Walter insiste em sua profecia, tocando-nos com seu vocal gutural, cuja força vem de suas entranhas emocionais. Enfim, temos uma interpretação fantástica. Um petardo “popular” e “supra-popular” – eis aí uma obra para o rock nacional. É impossível ficar indiferente, pois

É uma dor canalha,
Que te dilacera.
É um grito que se espalha.
Também, pudera!
Não tarda, nem falha,
Apenas te espera...
Num campo de batalha,
É um grito que se espalha,
É uma dor...
Canalha!

Tamanha é a força da peça que MARCELO NOVA, o príncipe do rock brasileiro e os TITÃS tentaram dar a ela suas próprias versões. Porém, há composições que não são passíveis de recriação. E esse é o caso de “Canalha”: WALTER FRANCO é, aqui, inimitável! Nem a Marceleza mais o eterno Raul poderiam fazê-lo; tampouco os cabeças-dinossauro (ainda que embasados pelo bom trabalho de TONY BELOTTO).

O Canalha

Em “Canalha”, o triunfo de WALTER FRANCO se dá pela simplicidade profunda da mensagem e pela grande interpretação a ela dedicada. Ademais, a composição permite com que façamos apropriações do seu sentido.

Certamente, deparamo-nos com muitos canalhas em nossas vidas: são os perpetradores do mal, os apologetas da mentira, os motivadores da desilusão. Porém, até que ponto não somos nós os próprios canalhas? Pois, como diz WALTER FRANCO, canalha é a dor nela mesma. Portanto, o que iremos fazer com ela e as circunstâncias envolvidas? Neste campo de batalha no qual a vida, muitas vezes, se transforma, nós mesmos realizamos esta condição antagônica miserável com as outras pessoas. Em virtude de nossas fraquezas.

Por outro lado, mesmo quando estivermos fortes, teremos de lembrar que este grito não tarda, nem falha, apenas nos espera: a dor e o mal tentarão dilacerar nossos corações. Logo, teremos de resistir, de fato, aos canalhas do mundo.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Motormama - Fogos de Artifício [2017]

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Por Fernando Augusto Lopes em Floga-se

Quando a batida e o rife espacial de “Te Vejo Na Cosmopista” começam, seguidos pelo baixo e a voz bêbada e um tanto afetada que declara que “eu vou sem direção, nessa louca estrada da vida, perdida, amor”, a impressão é que será impossível segurar o corpo, que se inquieta em busca de movimento.

Vivemos na era das tags, as etiquetas que ajudam as pessoas a identificar que tipo de música está por vir assim que se aperta o “play”. Aparentemente, é necessário, é uma das ferramentas mais úteis. Não por preguiça do ouvinte ou desconhecimento, é um facilitador em tempos em que não há tempo pra ouvir discos inteiros, apreciar um álbum por completo.

Não há uma tag pra “diversão”, porém essa deveria ser a tag do Motormama, quinteto de Ribeirão Preto, em seu quarto disco, “Fogos De Artifício”. Régis Martins, o cabeça da banda, até tenta expor essa ou aquela inspiração pro disco – é folk, é rock, é pop, é soul… Nada é suficiente.

Ou, por outra, cada ouvinte vai fazer uma ligação qualquer. A primeira que vem à minha cabeça é o Charlatans. “Fogos De Artifício” poderia ser uma boa peça da discografia do Charlatans.

O Charlatans pós-“Wonderland” (2001) é tudo isso – rock, pop, soul, indie – e uma música como “Te Vejo Na Cosmopista” poderia estar em qualquer disco dessa fase do grupo britânico. Não só ela: a faixa-título, um rock mais acelerado; “Não Sou Mais O Mesmo Sujeito”, um rock-soul; “Foi Pelo Dinheiro/Foi Por Diversão”, um “baiãozinho com arranjo complexo”, desses bem inocentes, com um balanço convidativo; “Rocket’s Tail”, o protagonismo da guitarra; todas elas tem o mesmo DNA básico que deu origem ao Charlatans. Em suma e preguiçosamente, é o que poderia chamar de “pop-rock”.

Não, a Motormama não se inspirou da turma de Tim Burgeess pra criar “Fogos De Artifício”. Martins cita de Clube Da Esquina a Stills, Nash & Young pra sublinhar que a sua arte é cosmopolita, é mundial, e portanto está na mesma gigantesca tigela do Charlatans, como do Pixies, do Wilco, do Replicantes, dos Mutantes e do Jupiter Maçã (homenageado em “Se O Mundo Desmoronar (Nunca Perca A Cabeça)”). Como identificar essa mixórdia?

São oito músicas e as oito são um prisma de possibilidades. Em comum é que elas são irresistivelmente chacoalhantes.

O Motormama é velho de guerra. “Fogos De Artifício” é o quarto disco em dezoito anos de carreira. É uma banda bissexta, como se vê. O disco anterior, “Aloha Esquimó”, é de 2009. Mas é nesse novo trabalho que, soltinha, a banda parece ter dado uma banana pra qualquer regra e caído na diversão. Régis Martins (guitarra e voz), Gisele Zordão (voz, teremim e maraca), Joca Vita (baixo) e dois novos integrantes Alessandro Perê (teclado e voz) e Thiago Carbonari (bateria), a essa altura do campeonato, não devem estar muito preocupados com a repercussão, quantos “curtir” ou “tuítes” vão levar.

Misturando inglês e português em algumas faixas (como “Vôo Número Zero” e “Rocket’s Tail”), a Motormama tampouco tenta parecer “profunda” ou “inteligente”. São letras simples, mas bem construídas, encaixadas.

“Não sou mais o mesmo sujeito que um dia dobrou a esquina / Se o espaço se expande, eu também quero caminhar nessa vida / Se eu cantar, não chores não / Não sou mais o mesmo sujeito que um dia te deixou sozinha / Levou o dinheiro, o cigarro, o isqueiro numa caixa vazia / Se eu voltar, não chores não” (seguido de um previsível e, ainda assim, irresistível solo de guitarra), sobre amadurecimento, em “Não Sou Mais O Mesmo Sujeito”.

“Se você pensa em ficar / Quero que você entenda / Tudo aquilo que você sonhar / Talvez nunca aconteça / Mas se o mundo for desmoronar / Nunca perca a cabeça / Siga em frente sem se preocupar / Se esse crime ainda compensa”, sobre frustrações, em “Se O Mundo Desmoronar (Nunca Perca A Cabeça)”.

“Meia-noite eu vou cantar um versinho popular”, no refrão de “Foi Pelo Dinheiro / Foi Por Diversão” é o resumo dessa facilidade de compreender e apreciar a própria simplicidade.

Quando se faz uma música tão solta e, arrisco dizer, “despretensiosa”, as expectativas são mais reais e palpáveis. Até mesmo uma possível pretensão de Martins – colocar “Longa Estrada Da Vida”, do Milionário & José Rico, e “A Estrada Perdida”, do David Lynch, na mesma frase, em “Te Vejo Na Cosmopista” – soa tão engraçada quanto inusitada.

Pode ser um disco perecível por toda essa facilidade de acesso, mas quem se importa? A única coisa a se fazer diante de “Fogos De Artifício” é se divertir junto.